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"NOVA CLASSE MDIA" FENMENO MUNDIAL

Se o Brasil est se transformando em um pas de classe mdia como afirmou a presidente Dilma Rousseff recentemente no Rio , ele no est sozinho. Dados do Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgados nesta quinta-feira mostram que, neste quesito, estamos ao lado de China, ndia, frica do Sul, Turquia, Bangladesh, Chile, Gana, Ilhas Maurcio, Ruanda, Tunsia, entre outros. Segundo o Pnud, entre 1990 e 2010, a classe mdia que vive nos chamados pases do Sul (a forma como o Pnud se refere s naes emergentes) passou de 26% a 58% do total desse grupo no mundo. At 2030, 80% desse segmento social devero viver nesses pases e responder por 70% do consumo do mundo.

O professor Jess Jos Freire de Souza, diretor do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade da Universidade Federal de Juiz de Fora, diz que irresponsvel chamar de classe mdia esses novos consumidores. Ele, porm, concorda que esse ganho de poder aquisitivo , sim, um fenmeno que vem ocorrendo em vrios pases emergentes:

O que tem surgido uma nova classe trabalhadora precarizada, que vai ser utilizada nas reas de servio, comrcio e pequenas indstrias do Brasil e dos pases emergentes do mundo inteiro. Por que neles? Porque voc no convence um francs ou um alemo que trabalha sete horas por dia de que ele ter que trabalhar 14 horas, como est ocorrendo com essas pessoas que no tinham nada e esto se incluindo no consumo, com dois, trs empregos e bicos. Mas isso no tem nada a ver com ser classe mdia.

Celia Lessa Kerstenetzky, diretora do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento da Universidade Federal Fluminense, identifica um movimento de incluso por meio do consumo, relacionado ao crescimento econmico mais rpido em vrios desses pases:

O que se observa com clareza uma evoluo dos rendimentos dos estratos inferiores de renda; um maior acesso a bens de consumo diz Celia. Mas em muitos casos o mercado de trabalho precrio, a proteo social incipiente e o acesso a servios sociais essenciais muito limitado. Acho equivocado falarmos em classe mdia no sentido sociolgico do termo. Alm disso, tem havido um aumento das desigualdades em muitos desses pases.

Falta formao cultural e social

Segundo Celia, a situao melhor em pases onde o padro de crescimento redistributivo, como no Brasil, onde a renda das parcelas mais pobres da populao cresceu mais rapidamente do que a das camadas com ganhos mais elevados:

Mas, de novo, falar em classe mdia um exagero. Pesquisa que fiz revela padres de consumo muito deficientes entre as famlias consideradas da classe mdia brasileira: moradias inadequadas, baixa escolaridade dos chefes de famlia, perspectivas desalentadoras para as crianas e jovens. Mobilidade social e reduo das desigualdades no se fazem apenas com ganhos de renda alerta a pesquisadora.

Para Jess Souza, no Brasil, alm do crescimento, houve impacto positivo do programa Bolsa Famlia, que acabou criando um ciclo virtuoso, ao injetar dinheiro numa faixa muito pobre da populao, e um efeito cascata positivo, a seu ver, inesperado at para os criadores do programa:

Mas, alm do capital econmico, necessria uma formao de capital cultural e social. Ento, uma mentira de fio a pavio dizer que essas pessoas (beneficiadas por programas sociais ou includas pelo consumo) so de classe mdia no Brasil. mentira do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetrio Internacional). E por que essa mentira precisa ser contada? Isso tem a ver com oportunismos polticos: pode trazer vantagens como ocorreu no Brasil nos ltimos dez anos.

Especialista em economia internacional, Luiz Carlos Prado, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama a ateno para o peso que pases como China e ndia tm na classe mdia dos pases do Sul:

preciso estar atento, porque um crescimento na classe mdia da China, que tem 1,4 bilho de habitantes, j provoca um aumento enorme na fatia desse grupo, j que o pas tem 20% da populao do planeta. O Brasil tem um peso, mas bem menor afirma.

O Pnud mostra que at 2030, a regio da sia-Pacfico acolher cerca de dois teros da classe mdia mundial; as Amricas Central e do Sul, cerca de 10%; e a frica Subsariana, 2%.


Fonte: O Globo Online - Nice de Paula
Data: 15/03/2013