Notícia

O IMPACTO DO MERCRIO NA SADE DO BRASILEIRO

Um dos grandes desafios contemporneos discutir a sinergia entre meio ambiente e sade pblica. A contaminao ambiental afeta seres humanos e animais. Na recente polmica sobre a qualidade do diesel brasileiro, por exemplo, estudo publicado em 2012 na revista cientfica Clinics indicou que pelo menos 14 mil mortes devem ocorrer no Brasil at 2040 devido inexistncia de um diesel de qualidade. Este nmero muitas vezes maior do que o de vtimas de tragdias areas, mas nem por isso capaz de mobilizar a opinio pblica. Mas existem muitos outros exemplos. Pesticidas que causam cncer, como chamou ateno Rachel Carson com seu livro Primavera Silenciosa, h 50 anos. Hepatite e outras doenas causadas por praias imprprias, alta mortalidade infantil por diarreias decorrentes da falta de saneamento bsico, o asbesto cuja proibio depende de deciso do Supremo Tribunal Federal. Enfim, a lista enorme. Mas h uma notcia boa neste cenrio, a ONU, por meio do Pnuma, discute um tratado internacional sobre o mercrio, a Conveno de Minamata. Uma avaliao do Pnuma de 2013 aponta que fontes antropognicas respondem por 30% das emisses atmosfricas, o que exige ao incisiva.

O mercrio um metal pesado que se acumula na cadeia alimentar, com efeitos perversos sade humana, especialmente no desenvolvimento de fetos e crianas pequenas. Independentemente de onde lanado, ele viaja por longas distncias atravs dos oceanos e da atmosfera, chega a ser transportado de um continente a outro. Quando inalado na forma de vapor, danifica os sistemas imunolgico e nervoso central, tireoide, rins, pulmes e olhos. Os sintomas incluem tremores, insnia, perda de memria, dores de cabea, disfuno motora, distrbios neurolgicos e comportamentais. O caso mais emblemtico o da Baa de Minamata, no Japo, quando a contaminao por mercrio chamou a ateno do mundo.

A exposio pode se dar atravs da ingesto de peixes, vegetais, passando pelo uso de alguns tipos cosmticos e produtos de higiene pessoal. Lmpadas fluorescentes, tintas, baterias e termmetros, todos contm mercrio. Alm disso, ele utilizado como amlgama por dentistas e em processos industriais. Estamos diante de um problema que exige uma dramtica interveno do poder pblico, setor empresarial, sociedade civil e Academia.

No Brasil, o assunto tem sido negligenciado, a despeito dos riscos para as populaes ribeirinhas da Amaznia em funo da ampla utilizao do produto nas atividades de garimpo l realizadas. Estudo do prestigiado Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia indicou que os ribeirinhos do Rio Negro esto expostos ao mercrio num nvel superior ao tolervel pelo organismo humano.

No Congresso Nacional, inacreditavelmente, tramita h 25 anos o projeto de Lei n.740/1988 que trata do controle do uso, da comercializao e da importao do mercrio e cianeto em processos de extrao de ouro, fundamentando-se nos prejuzos que estes causam sade humana, ao meio ambiente e economia.

E os riscos no Brasil no se restringem Amaznia. Em 2007, a Faculdade de Cincias Farmacuticas da USP publicou estudo indicando que cerca de 50% do cao disponvel comercialmente excede o nvel de mercrio permitido pela legislao brasileira. O que buscamos demonstrar que a contaminao por mercrio est no nosso cotidiano. Basta lembrar que o cao muito utilizado para se fazer ceviche, hoje um dos pratos da culinria peruana mais apreciados e constante no cardpio de muitos restaurantes.

No Brasil, preciso estabelecer programas de monitoramento do mercrio nos alimentos e no abastecimento de gua. E aprovar a lei que prope o controle do uso, comercializao e importao do mercrio em processos de extrao de ouro, lembrando que as maiores vtimas so os garimpeiros. No plano internacional, a Conveno de Minamata sobre Mercrio chega em bom momento e representa um passo importante na construo de uma cidadania planetria. Somos responsveis pela nossa sade e a da natureza.


Fonte: O Globo (Caderno Amanh) - Fabio Feldmann
Data: 26/02/2013